Meu Sorriso do Ano 2018

por | jan 16, 2019 | Artigos | 0 Comentários

É bom já ir se acostumando: aqui, no processo eleitoral do Prêmio Meu Sorriso do Ano, vale a democracia do liberal Alexis de Tocqueville, segundo a qual uma democracia não pode ser apenas a expressão da maioria, mas também, sobretudo, respeito às minorias. Se uma democracia não reconhece o importante papel das minorias, não as cuidando e protegendo-as não é, de fato, uma democracia. A esse respeito, registro que nem Lula, no auge de sua popularidade de ser apoiado por 87% dos brasileiros, ganhou o Prêmio Meu Sorriso do Ano de 2010. Portanto, para ganhar este Prêmio qualquer presidente terá de superar essa marca e, ademais, protagonizar alguma realização extraordinária. Com isso vou logo descartando a possibilidade de Jair Messias Bolsonaro, vitorioso nas eleições presidenciais-2018, levar o galardão neste ano.

Entre janeiro e dezembro, os amigos (as) que me ajudam a organizar o Prêmio Meu Sorriso do Ano (para saber mais sobre este Prêmio, veja aqui o primeiro artigo da série, publicado em janeiro de 2003) foram fazendo indicações de nomes que, em dezembro, foram submetidos à votação pública em redes sociais de que participo. Aproveito para agradecer, também publicamente, quem se deu ao trabalho de participar, votando ou indicando sorrisos. Aliás, conforme mencionei ao abrir o, digamos, processo eleitoral, esse negócio de votar é muito bom e é bom a gente exercitar isto o tempo todo, o mais que puder, pois vai que nesses novos tempos alguém decide “rever isso daí”…

Amigos, amigas, 2018 não foi um ano qualquer. Nenhum ano é, eu sei. Mas 2018 foi muito, muito “pesado”, marcado por mortes que nos impactaram de diversos modos, sendo inevitável que tenham repercutido no ambiente social e na lista de candidatos (as). Em artigo na Folha de S.Paulo, Caetano Veloso disse que 2018 “foi difícil” e lá pelas tantas afirma que “desistir do Brasil, não desisto. Gosto dele como Dostoiévski gostava da Rússia. Mas, sendo o Brasil o que é e eu quem sou, com mais alegria.” Concluiu dizendo que espera que 2019 “traga a superação desses embates simplistas. Que o Brasil esteja mesmo acima de tudo”.

As eleições presidenciais foram marcadas por esses ‘embates simplistas’ a que aludiu Caetano, transformadas em lamentável confronto de tipo futebolístico, rebaixando a níveis inacreditáveis o debate sobre os interesses do País e os rumos da Nação, convocando Deus para o sufrágio, transformando uma disputa entre adversários em guerra entre inimigos, e colocando em posições diametrais os “verdadeiros brasileiros” e os que, supostamente, não o seriam. Uma “coisa horrorosa”, como descreveu um amigo. Dessas eleições derivaram diretamente três indicações ao Prêmio Meu Sorriso do Ano: a do Cabo Daciolo, a do Mestre Moa do Katendê e a de Manuela D’Ávila.

O Cabo, disse uma amiga, foi visto como “algo eleitoralmente tosco, esquisito, deslocado, um misto de Antônio Conselheiro com sindicalista esquerdista, mas que expressou, nos debates na TV dos quais nunca fugiu, uma vertente evangélica que se pretende comprometida com aspirações humanistas do fundamentalismo cristão, para além dos apelos comerciais de certas igrejas e pastores midiáticos e venais”. Sua candidatura à Presidência da República, assim como a postulação do Pastor Everaldo em 2014, simboliza uma virada radical na relação de evangélicos com a política. De acordo com Sydnei Melo, em Os evangélicos na política brasileira, até meados dos anos 1980 predominava o bordão de que “crente não se mete em política”. Porém, já em 1987, políticos vinculados a essa vertente religiosa cristã ocupavam 33 das 487 cadeiras na Assembleia Constituinte. O crente que não se metia em política passava agora, diz Melo, a lidar com um novo slogan: “irmão vota em irmão”. Claro que Daciolo não é um evangélico da estirpe de um Rubem Alves, mas se equipara a líderes políticos evangélicos autênticos que se referenciam na Bíblia sem a vilipendiarem ou zombarem de fiéis. E com um bom humor que, voluntário ou não, contribuiu, segundo essa amiga, “para amenizar o ambiente tenso dessas eleições atípicas”. Mas Daciolo teve apenas dois votos para o Prêmio Meu Sorriso do Ano.

Romualdo Rosário da Costa, o Mestre Moa do Katendê, professor de capoeira e compositor, artista ligado às tradições afro-baianas foi, aos 63 anos de idade, vítima do ódio e da fúria infundidos ao processo eleitoral em busca de votos, desqualificando e coisificando adversários. Ficará eternizado como símbolo da tentativa de matar a alegria e estancar sorrisos. Foram 12 facadas. “Ele tinha um projeto social incrível, lutava pelas minorias, defendia nossa capoeira e foi morto por defender a democracia!” Uma amiga rogou justiça pelas vidas roubadas de Marielle Franco e Mestre Moa, vítimas de mãos que, direta e indiretamente, são o pior de nossos tempos e expressam a intolerância política e a violência antidemocrática. Outra amiga mencionou a circunstância toda da sua morte, pelo momento político que estávamos e estamos passando, discutindo o racismo generalizado como retrato da intolerância, legitimado por “velhos” políticos e pela maioria da população brasileira. “Um horror!!!”, disse – com essas três exclamações.

Manuela D’Ávila foi, segundo uma amiga, “capaz de resistir com ternura e altivez invejável, inspirando tantas meninas, jovens e mulheres feitas como eu. Manu é a forma visível da força feminista, da ideia de que podemos ser o que quisermos ser. Voto na Manu porque não dá para começar 2019 sem a esperança de dias melhores”.

Um amigo indicou Gabriel Jesus, que “mesmo após o acidente com fratura em um dos ossos da cavidade orbital esquerda, continuou alinhado e iluminado” e outro preferiu Kylian Mbappé, o francês campeão mundial de futebol, por seu “sorriso moleque e pela alegria em jogar bola ao invés de se rolar”. Mbappé é, de fato, um símbolo da seleção de futebol da França, vitoriosa na Copa da Rússia. Ouvi alguém dizer que “nem parece a França” ao ver o time perfilado ouvindo a Marseillaise. O que se viu nos gramados russos foi um futebol primoroso, jogado com competência, talento, entrega e paixão. Ou seja, tudo o que um fã do futebol quer do seu time – e dos adversários, por que não? A seleção francesa é a melhor expressão do país multiétnico que a França aceitou ser. Essa diversidade enriquece ainda mais aquele país. E foi isto o que se viu chegar ao ápice na final de Moscou, quando a França se impôs à valorosa e criativa Croácia por 4x2.

Em 13 de dezembro, no dia em que o Ato Institucional nº 5, o famigerado AI-5, completou 50 anos, faleceu Eunice Paiva, esposa do ex-deputado federal Rubens Paiva, preso político em janeiro de 1971 e desde então desaparecido. A morte de Paiva foi oficializada em 1996, mas seu corpo jamais localizado. Eunice morreu sem poder enterrar o corpo do marido. Uma amiga escreveu que está lendo Ainda Estou Aqui, do Marcelo Rubens Paiva, e que “a partir do olhar do filho, vejo a luta e a (perda da) memória da Eunice Paiva, que tem meu voto”. Em outra declaração de voto uma amiga afirma que “ela perdeu o amor da sua vida para a ditadura. Sobreviveu! Isto é heroico! E não somente sobreviveu! Cuidou dos filhos e deu formação para que fizessem diferença no mundo e além disso se configurou numa mulher que resistiu bravamente e contribuiu para a democratização do país. Tinha tudo para morrer! Sobreviveu e floresceu!”. Outra amiga saudou “a coragem e bravura das imprescindíveis, no sentido brechtiano de ser, Débora Diniz e Eunice Paiva. São mulheres com esse senso de justiça e de direitos que iluminam nosso caminho até uma sociedade com outro padrão civilizatório”.

Marielle Francisco da Silva, conhecida como Marielle Franco, socióloga, política, feminista e defensora dos direitos humanos, nasceu no subúrbio da cidade do Rio de Janeiro, na região conhecida como Complexo da Maré, onde cresceu. Eleita vereadora em 2016 com mais de 46 mil votos, pela coligação formada pelo PSOL e pelo PCB, foi a quinta candidata mais votada no município e, segundo o TSE, a segunda mulher mais votada ao cargo de vereadora em todo o país em 2016. Em 14/3/2018, Franco foi executada com três tiros na cabeça e um no pescoço, por autores e motivação ainda não esclarecidos. No atentado foi também assassinado Anderson Pedro Mathias Gomes, motorista do veículo que conduzia Marielle. O crime chocou o Brasil. Meus amigos e amigas que elegem o ganhador do Prêmio Meu Sorriso do Ano manifestaram-se por ela em ampla maioria, elencando justificativas que foram da beleza do sorriso, ao legado das suas lutas, que impulsionam a “eleição de tantas outras Marielles, em especial no RJ”. Um sorriso que “evoca com ternura alguém que entregou a vida à luta contra a desigualdade, o preconceito e a opressão. Um sorriso que vi nas fotos veiculadas pela mídia mostrando os traços delicados do seu rosto, seu olhar de bondade e sempre com uma expressão de quem está sorrindo ou prestes a sorrir”. Voto em Marielle “por ser uma mulher corajosa e de muita luta pessoal e social. O preço pago por suas ideias foi alto, mas sobretudo com sua transparência e caráter, me representa. Morreu com ela, um pouquinho de cada brasileira, num pais machista como o nosso”. O sorriso dela é lindo, disse um amigo. Outro argumentou: “o nome dela tem que permanecer vivo e na agenda! Onde estão os assassinos de Marielle?”.

Porém, ainda que tendo recebido a maioria esmagadora dos votos, Marielle não leva o Prêmio de 2018. Para chegar a essa conclusão foi decisivo considerar uma justificativa de voto: “voto na Débora Diniz, pois mulheres como ela, com seus discursos e suas práticas, manterão a Marielle Franco viva. Ela disse que ‘se já não tínhamos medo, por Marielle, agora teremos uma multidão em resistência’. Mulheres corajosas como a Débora nos dão ânimo para chacoalhar as apatias e derrotar as desesperanças que são tão fortemente reavivadas mediante fatos como a morte de Marielle”.

Débora Diniz é professora da Faculdade de Direito da Universidade de Brasília (UnB). Pesquisadora do Instituto de Bioética, Direitos Humanos e Gênero, é graduada em Ciências Sociais, mestre e doutora em Antropologia. Tendo feito todos os cursos na UnB (apenas o estágio pós-doutoral foi feito na Inglaterra, na Universidade de Leeds), Débora descreve a si mesma, no artigo Darcy Ribeiro resiste e persiste, como “um experimento de Darcy Ribeiro para o conhecimento sem fronteiras – cheguei por um curso, passeei por outros, me formei em Antropologia, hoje sou professora do Direito, e penso a saúde pública”. Nesse artigo ela pede “aos que festejam a vitória das eleições com mensagens de ameaça ou terror: esqueçam as universidades. Deixem a Universidade de Brasília em paz”. Débora está sendo ameaçada de morte pelo mesmo tipo de trogloditismo político que matou Mestre Moa e que ameaça o convívio democrático entre brasileiros.

Não há, diz Débora Diniz, “profissão de maior provocação neste momento do país que a de professor, [pois] se já éramos pensantes antes de chegarem ao poder, só seremos ainda mais. Se acreditam mesmo na democracia que os permitiu chegar à presidência da república, respeitem as regras do jogo. Na universidade não entram tanques ou gente armada – só se for para aprender, e pediria que sempre guardassem a arma quando se apresentem como estudantes em uma sala de aula (…). Na falta de argumento, não adianta nos ameaçar com bravatas de perseguição ou matança. Há meses, escuto bravateiros covardes que me perseguem como se isso fosse me silenciar. Aqui estou e estive por todas as partes nos últimos meses: se a mim, um experimento de Darcy Ribeiro, alguém sem músculos ou armas, só com livros e voz, os bravateiros não foram capazes de silenciar, jamais serão os mais de 20 mil alunos da Universidade de Brasília. Por isso, meu pedido: parem de desordenar antes de governar. Festejem que ganharam as eleições, mas reconheçam que a universidade sempre será livre e não se toma de assalto o pensamento”.

Concorde-se ou não com suas posições sobre os assuntos de que se ocupa, é lamentável que o seu pensamento seja visto como algo tão ameaçador a ponto de se reagir e ele com tamanha agressividade e violência. Débora, por sua segurança física, saiu do País; exilou-se. O episódio, para além do drama pessoal da professora da UnB, que motivou a criação por advogados criminalistas de uma rede em sua defesa, anuncia um tempo hostil à liberdade de pensamento e de crítica. Por sua serenidade e firmeza em defesa de suas convicções e porque os desafios que enfrenta não são apenas questões pessoais e profissionais, mas dizem respeito às liberdades democráticas e a reafirmação do direito a ter direitos no Brasil e a exercê-los na plenitude da cidadania, Débora Diniz é a ganhadora do Prêmio Meu Sorriso do Ano-2018. Caetano Veloso alerta-nos sobre a importância de “não desistir” do nosso país. Mas para que possamos não desistir do Brasil, que é de todos e não dos que pensam que são donos dos símbolos pátrios e arrogantemente arvoram-se o direito de decidir sobre quem é e quem não é brasileiro, precisamos de Débora Diniz, de muitas e muitos como ela, de sua vitalidade e disposição de luta para negar os que assassinaram Marielle, torturaram e mataram Rubens Paiva, e fizeram desaparecer, para sempre, o sorriso do rosto de Mestre Moa.

Paulo Capel Narvai

Paulo Capel Narvai

Cirurgião-Dentista Sanitarista. Especialista, Mestre, Doutor e Livre Docente em Saúde Pública. Professor Titular de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP). Autor de ‘Odontologia e saúde Bucal Coletiva’ (Ed.Santos) e de ‘Saúde Bucal no Brasil: Muito Além do Céu da Boca’ (Ed.Fiocruz) dentre mais de uma centena de obras científicas